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Psicóloga alerta sobre importância para saúde mental de militares: ‘vivem situações problemáticas’

Foto: Reprodução

Mato Grosso, um estado conhecido por sua vasta extensão territorial e riquezas naturais, também abriga uma realidade muitas vezes oculta: a saúde mental dos policiais. Enquanto esses profissionais desempenham um papel crucial na manutenção da ordem pública, enfrentam desafios únicos que podem afetar significativamente sua saúde mental.

Sobrecarga de serviço e o déficit no efetivo de reforço, muitas vezes, leva o profissional ao esgotamento e faz com que o agente tente, inclusive, contra si mesmo.

Neste ano, o assunto veio à tona em Mato Grosso, após duas ocorrências envolvendo policiais militares com problemas relacionados à saúde mental.

Em outubro deste ano, dois agentes morreram em São José do Rio Claro (342 km de Cuiabá). Após um desentendimento, o sargento Gabriel Castella atirou e matou o colega de farda, o sargento William Ferreira, e, no dia seguinte, tirou a própria vida na frente do Batalhão em que trabalhava.

A psicóloga Luana Estela, que atende policiais militares de Mato Grosso, disse, em entrevista ao Olhar Direto,  que é urgente a importância de dar uma atenção especial à saúde mental na corporação, que ‘vive situações problematícas’. E que também é importante ser célere na busca por ajuda profissional. Ela ainda falou da importância do autoconhecimento e de auxílio psiquiátrico e psicológico em momentos delicados.

Já o presidente da ACS-MT, Laudicério Machado garantiu que está em conversas com agentes políticos a fim de criar núcleos psicossociais dentro dos Comandos Regionais.

Confira a entrevista a seguir:

Luana Estela

OD: Luana, como é o seu trabalho desenvolvido na Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar (ACS-MT)?

Luana: Quando o associado entra em contato buscando um suporte, a ACS-MT de imediato me encaminha o agente. Posteriormente, realizo o colhimento de forma on-line, avalio a situação e, se necessário, oriento sobre a importância de passar pela avaliação psiquiátrica, para que assim seja um trabalho conjunto em prol da melhora da saúde mental do paciente. Tudo acompanhado pessoalmente pelo presidente da Associação Sargento Laudicério.

OD: E quantos agentes a senhora atende por mês?

Luana: Hoje fazemos cerca de 30 atendimentos, entre policiais e bombeiros militares por mês. Há casos em que atendemos o militar duas vezes na semana até perceber a melhora.

OD: Eles te procuram sempre ou apenas quando acontece algo específico?

Luana: De modo geral, as pessoas só buscam ajuda psicológica quando percebem que não conseguem lidar com as questões emocionais sozinhas. Não é diferente no meio policial. Após o contato profissional e, muitas vezes, a desconstrução do tabu, é mais fácil saber a quem procurar diante das suas necessidades. Eu percebo que os que nos procuram têm muita confiança no compromisso que o presidente da ACS tem com as questões de saúde mental do militar.

OD: Luana, recentemente, houve alguns casos de policiais militares que tiraram a própria vida; em outro, um agente matou o colega e depois foi encontrado morto dentro da cela na prisão em São José do Rio Claro. Que tipo de alerta isso acende?

Luana: São casos extremante delicados, que despertaram na sociedade um alerta sobre a urgência da viabilização quanto à promoção da saúde mental, na divulgação e estimulação de medidas de prevenção. Como também o fortalecimento de mais profissionais capacitados em saúde mental.

OD: E, no seu ponto de vista, por que os agentes da segurança pública estão adoecendo? Sobrecarga de serviço e o déficit no efetivo são fatores que contribuem?

Luana: A saúde mental está associada a diversos fatores, como biológico, comportamental, econômica e cultural. Nenhuma pessoa adoece por um só fator isolado e não é diferente com esses agentes. Apesar de lidarem diariamente com situações desafiadoras, acabam vivenciando situações problemáticas na vida pessoal, também.

OD: Eles também levam para as consultas problemas pessoais, situações incômodas no âmbito familiar, por exemplo?

Luana:  É inevitável que isso ocorra, pois uma separação entre as situações pessoais com as profissionais afeta todos os setores.

Laudicério Machado

OD: Laudicério, em relação à essas situações, quais os tipos de medidas que são adotadas?

Laudicério: Quando há situações delicadas e complexas envolvendo nossos militares associados, é oferecido todo o suporte e orientação para os encaminhamentos necessários. É um trabalho conjunto em busca pela resolução do problema enfrentado pela pessoa. Esse trabalho voltado para a saúde mental dos profissionais da Segurança Pública é desenvolvido por mim desde 2005, sendo implementado durante a gestão da ACS-MT. É uma maneira de dar voz às dores dos militares. Afirmo que não é algo pontual e, sim, de nossa sociedade, principalmente após o início da pandemia, já que aconteceram muitas mudanças em nossa sociedade, e como adaptar esse profissional para essa realidade? Como ajudar ele a cuidar de sua saúde para assim ele nos proteger da violência em nossa sociedade?

OD: Como o estado ajudado para amenizar isso?

Laudicério: Ainda não há uma política implementada no momento, mas tenho buscado àqueles que podem ajudar nesse processo, como a criação de núcleos psicossociais dentro dos Comandos Regionais. Penso que poderíamos buscar outras alternativas que não sejam dentro dos quartéis.

 

 

 

 

Fonte: Olhardireto

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