A Polícia Civil de São Paulo abriu uma investigação para esclarecer as circunstâncias das mortes de bebês atendidos no Hospital Salvalus, localizado na Mooca, zona leste da capital paulista. Os casos ocorreram ao longo dos últimos meses e envolvem suspeitas de infecções adquiridas durante a internação, com complicações como sepse e choque séptico.
O inquérito está sob responsabilidade do 8º Distrito Policial (Brás), que investiga inicialmente seis mortes. Entretanto, foram identificadas 16 certidões de óbito relacionadas a casos envolvendo crianças atendidas na unidade. Segundo a advogada Eduarda Fragnan Gomes, que representa familiares das vítimas, há contato com 36 mães que perderam seus filhos após passarem pelo hospital, que integra a rede Hapvida.
A quantidade de mortes ainda não foi oficialmente estabelecida, e as autoridades buscam esclarecer se existe relação entre os casos. A Secretaria da Segurança Pública informou que as ocorrências foram comunicadas à polícia em 21 de outubro. Entre as medidas adotadas estão a coleta de depoimentos de profissionais de saúde e testemunhas, além da análise dos prontuários médicos para identificar as causas dos óbitos.
Um dos casos investigados envolve Gael França da Silva, que tinha quatro meses quando foi atendido no hospital, em abril deste ano, com inflamação na garganta. Conforme o relato da mãe à polícia, a criança recebeu prescrição de medicamentos sem passar inicialmente por exames.
No dia seguinte, o bebê apresentou palidez e redução da temperatura corporal. Após avaliação médica e realização de exames, foi constatado um processo infeccioso, e ele acabou encaminhado à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde precisou ser intubado e receber medicamentos por via intravenosa.
Durante a internação, o pé utilizado para a administração dos medicamentos desenvolveu necrose. A mãe também relatou problemas nos olhos do filho, que teriam comprometido sua visão. Depois de permanecer internado por meses, Gael morreu aos sete meses de idade. A certidão de óbito registrou choque séptico, sepse, pneumonia e encefalopatia hipóxico-isquêmica.
Outro caso envolve Guilherme Ferreira Miranda, que tinha um mês de vida quando foi internado, em março, para tratamento médico. Durante a permanência no hospital, a criança apresentou inchaço corporal, sangramento e episódios de parada cardiorrespiratória. Segundo os pais, também houve preocupação com os medicamentos administrados.
O bebê recebeu atendimento intensivo, mas morreu no início de maio, após aproximadamente um mês de internação. A documentação de óbito apontou choque, coagulação intravascular disseminada e atresia das vias biliares entre as causas registradas.
A investigação também abrange a morte de Alice Vitória de Andrade Reis, que tinha um ano quando faleceu, em abril deste ano. A menina havia sido internada para um procedimento relacionado à alimentação e permaneceu no hospital por cerca de seis meses. Durante esse período, apresentou diferentes complicações, incluindo uma infecção bacteriana no cérebro.
A mãe de Alice, Leticia Ferreira, afirma suspeitar de contaminação no ambiente hospitalar. Segundo ela, a filha contraiu a bactéria KPC, conhecida pela resistência a diversos antibióticos, e desenvolveu complicações durante o tratamento. A família espera que a investigação esclareça o que aconteceu durante a internação.
Em resposta aos casos, a rede Hapvida afirmou que os pacientes apresentavam condições clínicas distintas e graves e que receberam assistência contínua, com acompanhamento de equipes multidisciplinares e estrutura hospitalar de alta complexidade.
A empresa declarou ainda que os tratamentos foram definidos individualmente, levando em consideração as necessidades de cada paciente e a evolução dos respectivos quadros clínicos. Também informou que a unidade mantém um canal de diálogo com as famílias para prestar esclarecimentos, respeitando a privacidade e o sigilo médico.
As circunstâncias das mortes seguem sob investigação. Até o momento, não há conclusão oficial que estabeleça eventual responsabilidade do hospital pelos óbitos. A análise dos documentos médicos e os depoimentos previstos no inquérito deverão contribuir para esclarecer as causas das mortes e possíveis irregularidades.












