
Inclusão Escolar e Alfabetização de Crianças Autistas: Desafios e Caminhos para uma Educação Acolhedora
No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado nesta quarta-feira (02) e instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), a inclusão escolar e a alfabetização de crianças e adolescentes dentro do espectro autista emergem como desafios fundamentais para a garantia de direitos dessa população. O psicólogo Raphael Guilherme da Costa Alves, especialista em crianças e adolescentes atípicos, destacou, em entrevista ao Olhar Direto, a importância de uma inclusão escolar efetiva e as dificuldades enfrentadas nesse processo.
Inclusão Escolar: Muito Além da Matrícula
Segundo o especialista, a verdadeira inclusão escolar vai além da simples matrícula em uma sala de aula. “É essencial garantir que essas crianças tenham oportunidades reais de aprendizado, desenvolvimento e convívio social, com estratégias pedagógicas adaptadas e um ambiente acolhedor”, afirma Raphael.
A inclusão de qualidade exige um planejamento que favoreça o envolvimento ativo do aluno no ambiente escolar. “Não se pode considerar inclusão quando toda a turma está aprendendo conteúdos complexos e a criança autista permanece isolada em uma atividade sem propósito pedagógico. O foco deve ser pertencimento, dignidade e aprendizado efetivo”, reforça.
Adaptação Curricular e Planos Individualizados
Outro aspecto essencial apontado pelo psicólogo é a necessidade de adaptação curricular para crianças autistas, de forma individualizada e feita por profissionais qualificados. Ele alerta que um mesmo Plano de Ensino Individualizado (PEI) não pode ser aplicado indiscriminadamente para todos os alunos autistas, pois cada um possui necessidades específicas. “Cada criança precisa de estratégias adaptadas ao seu modo de aprendizado”, explica.
Combate ao Bullying e Ambiente Escolar Seguro
O bullying é outra preocupação dentro do contexto escolar. Raphael enfatiza que crianças autistas podem ser mais vulneráveis, mas que isso pode ser evitado com a adoção de ações educativas. “O problema não está no autismo, mas na falta de discussões sobre capacitismo, empatia e respeito à diversidade. A escola precisa envolver alunos, professores e famílias nesse processo para garantir um ambiente seguro”, defende.
História de Inclusão: O Caso de José Caetano
Exemplo da importância da conscientização dos pais na inclusão escolar é a história de José Caetano, de três anos, autista nível três de suporte e não verbal. Ao ingressar na creche, sua mãe, Nany Bologna, de 31 anos, optou por preparar bilhetes explicativos para os pais dos colegas de classe, informando sobre as particularidades do filho.
Uma das preocupações era o uso de garrafas de água como estereotipia (comportamentos repetitivos comuns no autismo), o que poderia levá-lo a pegar objetos de outras crianças sem pedir. “Fiquei ansiosa porque ele pega as garrafinhas de todo mundo nas terapias. Pensei na reação das crianças quando isso acontecesse, já que ele não fala nem entende comandos simples como um ‘não’”, conta Nany.
No bilhete, a mãe explicou que o filho faz 20 horas mensais de terapia para aprender a brincar e conviver com colegas não autistas de maneira digna e feliz. Ela também reforçou que José Caetano não é violento e que o uso da garrafa de água para estereotipia será trabalhado ao longo do tempo com terapia. “Sei que não será fácil, crianças são crianças, mas que seja da forma mais amorosa possível”, conclui.
Estratégias para Lidar com Crises no Ambiente Escolar
Em casos de crises ou comportamentos desafiadores, Raphael Alves reforça que as escolas devem ter protocolos claros de conduta. O foco principal deve ser a prevenção, identificando sinais de que a criança pode estar entrando em crise e agindo antes que ela ocorra. “Nenhuma criança deseja ter uma crise, pois é um momento de grande sofrimento. Quando ocorre, as ações variam: técnicas de respiração, espaços de autorregulação ou passeios pelo pátio podem ajudar”, explica o psicólogo.
Inclusão Beneficia Todos os Alunos
Uma dúvida comum é se a inclusão de alunos autistas poderia atrapalhar o aprendizado de estudantes neurotípicos. Para Raphael, com planejamento e seriedade, a inclusão beneficia toda a comunidade escolar. “Já vi crianças ajudando colegas autistas de forma espontânea. Uma escola inclusiva estimula cooperação e respeito, valores essenciais para a vida em sociedade”, destaca.
Escolas Especiais: Um Debate Necessário
Raphael também aponta que a discussão sobre escolas especiais é complexa. Embora seja ideal que todos convivam com a diversidade, algumas escolas ainda não estão preparadas para uma inclusão efetiva. “Em outros países, há escolas especiais como transição para o ensino regular. No Brasil, essa discussão ainda está em andamento e envolve questões políticas e estruturais”, analisa.
A legislação brasileira garante que escolas não podem recusar matrícula de crianças autistas. Caso isso ocorra, a família pode denunciar ao Ministério Público e registrar um Boletim de Ocorrência.