A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes passou a ocupar espaço central no discurso dos principais candidatos à Presidência da República. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva defende uma investigação ampla, sem citar diretamente o magistrado, adversários políticos passaram a cobrar medidas mais duras, incluindo o impeachment.
O caso ganhou força após um relatório da Polícia Federal apontar trocas de mensagens e ao menos seis encontros entre Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. As suspeitas mencionadas no documento envolvem um possível recebimento de vantagens econômicas pelo ministro em troca de informações sigilosas relacionadas a operações policiais.
Lula, que busca a reeleição, se manifestou sobre o episódio na noite de quinta-feira (3/9). Sem mencionar Moraes nominalmente, o presidente afirmou que é necessário investigar o caso de forma abrangente e que ninguém deve receber tratamento privilegiado. Ele também defendeu instituições fortes e respeitadas e criticou o que classificou como vazamentos seletivos.
O petista ainda voltou a defender a criação de um código de ética para o Judiciário e o Ministério Público, uma pauta já defendida por integrantes de seu partido.
Entre os adversários, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) adotou uma postura mais contundente. Durante discurso no Senado, ele pediu a abertura imediata de um processo de impeachment contra Moraes e criticou a atuação do Legislativo diante das suspeitas.
Ronaldo Caiado (PSD) também defendeu o afastamento do ministro. Em entrevista, o candidato afirmou que o Senado teria maioria para apresentar e votar um processo de impeachment e considerou insustentável a permanência de Moraes no cargo diante dos elementos reunidos pela Polícia Federal.
Augusto Cury, do Avante, afirmou que Moraes precisa prestar esclarecimentos e que, caso sejam comprovadas condutas passíveis de punição, o ministro deveria deixar o cargo ou enfrentar um processo de impeachment.
Já Renan Santos, do Missão, apresentou ao Senado um pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O documento cita possíveis crimes de responsabilidade e aponta suspeitas de uma eventual relação de favorecimento dos ministros com Daniel Vorcaro, caso as acusações sejam confirmadas.
Romeu Zema (Novo) também criticou Moraes e defendeu seu impeachment, além de mencionar a possibilidade de prisão do ministro.
O caso também alcançou nomes ligados aos próprios grupos políticos que discutem o impeachment. Flávio Bolsonaro aparece em conversas de Vorcaro relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Segundo as informações apresentadas no caso, o banqueiro teria repassado US$ 1,6 milhão para a produção em setembro de 2025, após o senador cobrar parcelas em atraso. Outros seis repasses, realizados até maio de 2025, teriam somado R$ 61 milhões.
Na ala petista, o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Congresso, foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero. As investigações apuram supostas irregularidades relacionadas ao Banco Master e mencionam possíveis benefícios recebidos pelo parlamentar, como utilização de aeronaves ligadas ao grupo de Vorcaro, ingressos para shows e a negociação de um apartamento em Salvador avaliado em aproximadamente R$ 2,5 milhões.
O debate político ocorre paralelamente a novos desdobramentos dentro do próprio STF. Nesta semana, o ministro André Mendonça autorizou a retirada do sigilo de um relatório da Polícia Federal que registrou mensagens e supostos encontros entre Moraes e Vorcaro.
Na quinta-feira (3/9), Moraes também acusou Mendonça de possíveis práticas de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução das operações Sem Desconto e Compliance Zero. O ministro encaminhou o caso ao presidente do STF, Edson Fachin, no âmbito do Inquérito das Fake News.
Fachin, por sua vez, abriu procedimento para avaliar se houve nulidade nas medidas adotadas por Mendonça ao solicitar o aprofundamento de investigações envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o próprio Moraes.
O presidente do STF determinou que Moraes, Mendonça, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República apresentem manifestações sobre o episódio no prazo de cinco dias.
No Senado, parlamentares da oposição, entre eles Alessandro Vieira, Carlos Viana, Cleitinho, Damares Alves, Esperidião Amin, Flávio Bolsonaro, Izalci Lucas, Luis Carlos Heinze e Magno Malta, defenderam o afastamento de Moraes por impeachment ou renúncia.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), entretanto, criticou o elevado número de pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo. Segundo ele, existem 109 solicitações contra os dez ministros da Corte em tramitação no Congresso. Alcolumbre não indicou que pretende levar adiante o processo relacionado a Moraes.














