Mato-grossense cria site para ajudar vítima de violência doméstica

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Foto: Alair Ribeiro/MidiaNews
CAMARA VG

Midia News

Após sentir na pele as consequências da violência doméstica, a administradora mato-grossense Paula Regina dos Santos, de 32 anos, resolveu criar um site para auxiliar mulheres que passaram pelo mesmo problema.

Paula viveu, por cinco anos, entre idas e vindas, um relacionamento com um homem que a agredia. Ela só conseguiu dar um basta quando o agressor foi preso em flagrante.

Sua última agressão, há dois anos, foi tão grave que deixou uma sequela em seu maxilar e várias outras em sua vida.

Por isso, e por todas as dificuldades que teve para encontrar ajuda, ela decidiu usar a sua história e seu aprendizado para auxiliar outras mulheres através do site HelpHer (ajude ela).

O site

O HelpHer é uma plataforma que liga mulheres vítimas de violência doméstica a informações e voluntários que querem, de alguma forma, ajudar. Esses voluntários são chamados de anjos.

“A mulher vítima de violência doméstica nos procura através do site e nos conta sua história. Nós a orientamos sobre o que ela precisa no momento e encaminhamos para esses cuidados. Porque a maioria das vítimas faz o boletim de ocorrência e depois não sabe o que fazer”, disse Paula.

A administradora afirmou que existem vários direitos que as vítimas nem ao menos sabem possuir, como o acesso a cirurgias reparadoras e afastamento pelo INSS.

O site foi lançado em outubro de 2016 e, em menos de um ano, já auxiliou mulheres de todo Brasil, desde apenas dando informações até realizando o acompanhamento individual nas áreas jurídica e psicológica.

Hoje, 20 pessoas fazem parte do time de voluntários do HelpHer, que conta com psicólogas, coaching de carreira, especialista em dependência química e ouvintes.

“Consegui duas coaching de carreira, aqui de Mato Grosso mesmo, e elas vão dar uma orientação melhor, uma vez por semana, para essas mulheres, porque algumas são dependentes financeiras do agressor e se veem de mãos atadas, não sabem o que fazer para que conseguir ter autonomia e se liberar desse relacionamento abusivo”, explicou Paula.

O HelpHer não atende somente mulheres que já se separam. As voluntárias também auxiliam as que ainda estão apenas temendo e não sabem o que fazer, dando orientação para saber como agir.

“É o suporte para que essa mulher conheça até quais são os tipos de violência. Às vezes, a garota está namorando e ela não sabe que aquele relacionamento é abusivo, essa orientação de discernir o que é uma violência física, uma violência psicológica, moral”, disse.

Paula observou que uma das maiores preocupações dos voluntários é jamais expor, ou julgar as vítimas, que inclusive podem conversar e ter orientações de forma anônima. E que a mulher ter com quem conversar pode salvar sua vida.

“São inúmeros casos pelo Brasil que acabam acontecendo morte e, às vezes, a mulher só não tem uma pessoa para ampará-la, alguém na família para aconselhar, orientar e até para trazer para dentro de casa. Nos grandes centros, há as casas de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica, mas nas cidades pequenas não tem”.

Alair Ribeiro/Midia News

Paula Regina Santos

Paula afirmou que o site tem o objetivo de apresentar todas as informações possíveis às vítimas de violência doméstica

Como Paula teve muita dificuldade em encontrar informações sobre locais que auxiliam mulheres vítimas de violência doméstica, o site vem justamente apresentar esses lugares e mostrar que elas não estão sozinhas.

“Eu não conhecia ninguém que tinha passado por isso e que teria como me orientar a respeito. Quando vim para Cuiabá, ainda fui algumas vezes na UPA [Unidade de Pronto-Atendimento] com dor, não sabia que existia a lei, de dezembro de 2015, que garante a reparação cirúrgica da mulher vítima de violência doméstica, inclusive a plástica. Na hora em que eu soube que os médicos que me atenderam deveriam ter me orientado sobre a cirurgia reparadora e me passarem o encaminhamento adequado, eu chorei, porque eu não fui orientada”, disse.

Hoje, a administradora faz o primeiro atendimento das vítimas para descobrir o que elas precisam e orientá-las sobre quais profissionais procurar e, depois disso, indicar os locais que elas podem conseguir esse atendimento, seja gratuitamente, ou particular para as que tiverem condições.

Atualmente, seis mulheres estão sendo assistidas pelo site, sendo que cinco delas estão finalizando o atendimento e uma ainda terá o direcionamento profissional.

Duas dessas seis, inclusive, optaram por se tornar voluntárias do projeto. “Eu credito que a HelpHer tem muito a crescer justamente por isso, porque a mulher passa de assistida para correalizadora e isso é muito bom”, afirmou.

A história de Paula

Paula Nasceu em Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá) e, na época das agressões, morava em Lucas do Rio Verde (354 km ao Norte). Como seu processo está em segredo de justiça, ela não pode falar detalhes sobre os cinco anos, entre idas e vindas, em que sofreu agressão, ou sobre o último dia que gerou sua lesão no maxilar.

Porém, ela afirmou que foi vítima de todos os tipos de violência, começando pela psicológica, em que era intimidada pelo agressor, passando pela patrimonial, tendo seu celular quebrado e roupas rasgadas, e pela moral, e chegando à agressão física.

“Há um ciclo da violência doméstica. Primeiro, é um relacionamento saudável, aí tem uma ameaça, uma violência psicológica, um abuso psicológico; depois, a agressão física, o perdão, a reconciliação e começa tudo de novo. Isso é o que todas as vítimas falam. Um dia, você perdoa um tapa, no outro você perdoa um xingamento, depois um empurrão e a agressão vai aumentando a gravidade, podendo chegar até a morte”, contou.

Ela disse que, por causa do tabu que ainda existe em torno da violência doméstica, ela teve medo de contar para seus familiares, que só descobriram após dois anos, quando viram marcas roxas em seus braços.

“Meu pai me encostou na parede e falou: ‘Que roxo é esse? Nos dois braços?’. Aí minha mãe chegou, eles me trancaram no quarto e conversaram comigo. Foi só por isso. Eu tentei esconder o máximo que consegui, só consegui contar quando estava exposto. Eu cheguei a passar por situação constrangedora na empresa, de aparecer com a mão e o braço roxo”, disse.

O relacionamento foi mantido entre 2010 e 2015, seguindo o ciclo de términos, perdões e novas agressões. E ela só conseguiu sair quando o ex-marido a agrediu na frente do filho e foi preso em flagrante.

“Eu tomei consciência da gravidade da situação. O meu rosto ardia muito quando cheguei à delegacia e a moça falou que me daria o encaminhamento para fazer o exame de corpo e delito. Eu respirei fundo, com meu filho no colo, com três anos. Aí eu olhei pra ele [o agressor] e ele falou: ‘Você vai me pagar caro porque você me denunciou’”, disse

Paula foi socorrida pelos vizinhos, que a escutaram pedir socorro e chamaram a polícia, que demorou entre 30 e 40 minutos para chegar.  

Após a denúncia, ela fez o exame de corpo de delito, arrumou suas coisas e se mudou com o filho para Cuiabá, imediatamente.

A mãe de Paula ainda mantém contato com o agressor apenas para enviar informações sobre o filho do casal. Ele nunca foi proibido de ver a criança, porém, segundo Paula, durante os dois anos de separação, só viu o filho uma vez.

Ela contou que seu psicológico ficou muito abalado, porém desde quando ainda estava no casamento passou a receber ajuda psicológica da profissional da empresa em que ela trabalhava à época.

Em Cuiabá, ainda fez terapia com outros psicólogos, em um centro espírita, na Defensoria Pública e na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e algumas terapias alternativas, como a psicoterapia reencarnacionista e a constelação familiar. Todos esses serviços foram conseguidos gratuitamente.

Sequelas

Com a grave agressão, a administradora teve uma disfunção na articulação temporomandibular, que é quando há o deslocamento da mandíbula na parte de baixo do queixo. Essa disfunção provoca atrito no osso.

Além disso, o líquido da articulação entrou no osso de seu maxilar e, por isso, Paula tem vários cistos subcondrais, que são pequenos buracos no osso, que, segundo ela, causam uma dor "insuportável".

“Quando esfria, piora a dor no osso, eu não consigo explicar. Falo que é pior do que dor de dente, é uma dor horrível que nenhuma posição faz passar. A minha impressão era de que tinha uma faca enfiada no meu queixo”, disse.

Alair Ribeiro/Midia News

Paula Regina Santos

Por causa da última agressão, Paula ficou com uma sequela e precisa passar por uma cirurgia que custa R$ 7 mil

Paula precisa passar por uma cirurgia chamada artroplastia da articulação têmporo-mandibular, que irá reparar a articulação. E no momento da cirurgia o médico irá avaliar se o osso ainda tem condições de permanecer, ou se será necessário fazer um enxerto.

A cirurgia custa R$ 7 mil, mas ainda seriam necessários R$ 1 mil para exames pré-operatórios e R$ 2 mil para fisioterapia e medicação.

Ela está promovendo um campanha para arrecadar esse valor pelo site de arrecadação coletiva Kichante, porém, até o momento, ela conseguiu apenas R$ 290 em doações.

Quem quiser doar, pode fazê-lo clicando AQUI.

O filho

Além da sequela física, Paula disse que tem mais uma coisa que mantém a dor, que são as lembranças que ficaram no filho, hoje com cinco anos.

“Porque, às veze,s ele fala: ‘Mamãe, quando meu pai vier, você esconde debaixo da cama para ele não achar você, porque se ele te achar ele pode te bater, né?’. Isso ainda é muito difícil de lidar. Esses comentários dele que vão surgindo, porque ele assistiu. Eu gostaria de passar uma borracha na cabeça dele e falar que ele tem que esquecer tudo isso, mas é muito delicado”, disse.

Ela contou que reza pelo agressor, ensinou o filho a também rezar pelo pai e que tenta evitar ao máximo que ele tenha danos maiores do que os já sofridos, ensinando que o problema foi entre ela e o pai, mas não com ele.

“Eu sinto que o pai dele vai ser presente na vida dele sempre. Eu desejo de coração que ele nunca abandone o filho, apesar da violência doméstica em si já causar um distanciamento, porque moram em cidades diferentes, mas a violência foi comigo e eu expliquei isso para o meu filho”.

Histórias marcantes

Paula afirmou que todas as histórias que chegam através do site a marcam profundamente, e que essa, para ela, é a parte mais significativa do projeto: “anular-se um pouco e ouvir o que a pessoa tem para dizer”. Porém relatou algumas das histórias que mais a tocaram.

Um delas foi a de uma mulher que a procurou às 23h contando que o marido a tinha agredido e colocado fogo nas roupas dela e dos cinco filhos. A violência havia acontecido havia dois dias e a vítima não sabia o que fazer, nem tinha alguém a quem recorrer.

Nesse caso, o HelpHer fez uma campanha de arrecadação de roupas, mas no fim o agressor foi convencido pela delegada a comprar as roupas das crianças.

Outro caso que a chocou foi uma mulher que não tinha sido vítima de violência doméstica, mas sim de três homens que tinham entrado em sua casa para assaltá-la.

“Ela tentou sair e não conseguiu. Os três a estupraram. Ela perdeu a consciência e a polícia achou ela no meio da rua na saída para Rondonópolis. Eu não sei como eles bateram, porque ela teve um corte no tórax, próximo ao seio. Com a violência do estupro, houve um rompimento entre a vagina e o ânus”, contou Paula.

Essa vítima foi enviada para o Pronto-Socorro e sobreviveu. Quando ela procurou o HelpHer, afirmou que precisava apenas de alguém para ouvi-la.

“Ela ficou com sequelas, mas para ela não é só o físico. Ela falou que ia pedir a separação porque não sabia como contar para o marido o que tinha acontecido. Ele estava viajando no dia do crime”, contou emocionada.

Mas também há casos que a marcaram pelo lado bom. Como uma jovem que a procurou dizendo que o marido era usuário de drogas.

Paula a orientou a comunicar a família para que pudessem ajudá-la.

“Quando ela nos avisou que o pai dela tinha ido morar com ela, a gente sentiu uma segurança muito grande. Porque uma mulher, com três filhos, sendo o marido usuário de drogas, está numa situação de risco. A última vez que ela precisou de ajuda, o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) teve que resgatá-la em casa. Ela ter ajuda do pai nos traz uma alegria muito grande. É uma a menos que não receberemos a notícia de uma morte”, disse.

Houve ainda o caso de uma mulher que denunciou na primeira agressão do marido, que se arrependeu, pediu perdão, procurou tratamento e, com isso, eles mantiveram o casamento por 25 anos sem nunca mais haver nenhuma violência.

São histórias como essa que fazem com que Paula acredite que a única forma de parar a violência doméstica é quebrando o silêncio.

Alair Ribeiro/Midia News

Paula Regina Santos

"A partir do momento em que você quebra o silêncio, você encontra muitas pessoas para ajudar, muitos anjos aparecem"

“A violência doméstica não é um tabu, todo mundo pode sim falar a respeito com a família, com os amigos, no trabalho. A partir do momento em que você quebra o silêncio, você encontra muitas pessoas para ajudar, muitos anjos aparecem”, afirmou.

Emprego

O site também se disponibiliza a divulgar empresas que contratem mulheres vítimas de violência doméstica, visto que essa foi uma das grandes dificuldades de Paula.

Quando tentou voltar para Rondonópolis, a administradora trabalhou em uma empresa cobrindo outra mulher que estava em licença maternidade. Ao fim do contrato, abriu uma vaga para analista de folha de pagamento.

“Eu tinha trabalhado dois anos na área, tinha formação, tinha os requisitos para o perfil que eles exigiam, mas a gerente de RH negou a minha candidatura para o cargo, porque ela falou que eu não poderia dar 100% para a empresa, por estar passando por um processo de separação com violência doméstica”.

Em uma segunda tentativa, Paula participou de um processo seletivo em Cuiabá. Na entrevista havia duas telas de computador à frente do entrevistador. Em uma estava aberto seu currículo, na outra seu processo criminal.

“Essas duas dificuldades que enfrentei em relação à busca de emprego me deram mais ânimo para fazer a HelpHer ser uma via para empresas que realmente respeitam o funcionário como pessoa, não diferenciando quem sofreu violência doméstica”, disse. 

Como o site está crescendo, Paula também está em busca de novos voluntários de todas as áreas. A intenção é que o grupo chegue a 50 voluntários até dezembro.

 

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