Filho reencontra pai que veio para MT há 30 anos trabalhar no garimpo com ajuda de reportagem

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Foto: Arquivo Pessoal
CAMARA VG

Olhar Direto

O Maranhense Rui Rei Lopes de Souza, 38, nunca mais vai esquecer do dia em que ligou para o orelhão da pequena comunidade de Pedra Branca, no Pará, e ouviu, após 26 anos, a voz de seu pai. Muito menos de quando, quatro anos depois, viajou para lá e viu seu progenitor chegando em um barquinho para lhe buscar no cais. Para chegar até aquele momento, ele contou com a ajuda de diversas pessoas, dentre elas a ex-repórter do Olhar Direto Laura Petraglia, e uma leitora do site.

Rui nasceu no interior do Maranhão, filho de Domingos Moreira de Souza. O pai, que sempre trabalhou no garimpo, passava muito tempo longe de casa. “Ele demorava a voltar, e muitas vezes voltava doente, o que causava problemas com a minha mãe”, contou o maranhense ao Olhar Conceito. Certo dia, seu Domingos foi embora e não voltou mais. Rui, filho mais velho de três irmãos, tinha apenas nove anos de idade.


Rui e os irmãos maranhenses (Foto: Arquivo Pessoal)

Alguns anos depois, a mãe de Rui também foi embora, e os irmãos ficaram aos cuidados dos avós maternos. Reencontrar a mãe foi fácil, mas do pai ele nunca mais havia tido notícias. “Eu sabia que ele vivia do garimpo, e já tinha trabalhado em vários”, lembra o filho. “Por meio de alguns familiares, soube que ele tinha ido pela última vez para Mato Grosso”.

Com essa informação em mãos, Rui fez uma pesquisa e encontrou o site Olhar Direto, para onde decidiu ligar e pedir ajuda. “Era final de expediente, e a menina que me atendeu não deu muita atenção. Mas ela fez o grande favor de passar o telefone para a Laura, que fez questão de ajudar”, lembra.

A repórter fez a matéria, que saiu às 16h40 do dia 6 de abril, um sábado, com o título: “Maranhense procura pai que veio para Mato Grosso há 26 anos trabalhar no garimpo”. Mas nem mesmo Rui acreditava que o resultado viria tão rápido.

A busca

Depois de divulgada a matéria, diversas pessoas passaram a ligar para o maranhense, dando pistas sobre seu pai. Algumas eram claramente falsas, outras pareciam verdadeiras. “Eu tentava juntar as pistas para descobrir. O que chegou mais perto foi uma pessoa que disse que meu pai tinha sido preso por matar uma pessoa. Mas eu procurei mais informações, e elas não bateram”, lembra Rui.

Foi uma leitora do Olhar Direto, funcionária de um banco (que prefere não se identificar) que conseguiu encontrar o paradeiro de seu Domingos. Ela descobriu que o ex-garimpeiro era correntista de um banco em Peixoto de Azevedo, e conseguiu seu CPF.

Com o CPF em mãos, ela descobriu onde Domingos havia votado pela última vez. “Era em uma escola nessa comunidade de Pedra Branca, que é muito pequena e isolada. Eu não sei como, mas ela conseguiu o telefone do único orelhão da comunidade, que funcionada por meio de placa solar, já que lá não tinha energia elétrica”, conta Rui.

Depois que visitou seu pai, o maranhense conheceu o outro lado da história: “Ele estava sentado na calçada depois de um dia todo trabalhando na roça, cansado, e ouviu o orelhão tocar. Ele nem queria atender, porque sabia que era recado para alguém e estava com preguiça”, conta. “Mas caiu a ligação e a moça tentou mais uma vez, até que ele atendeu. Ela pediu para falar com o presidente da comunidade, que era quem ela tinha o nome, e ele pediu para que ela ligasse dali a quinze minutos, que ele ia chamar. Mas ela ficou curiosa e perguntou quem estava falando. E meu pai respondeu que era o ‘Moreira’”.

A bancária perguntou se o Moreira, no caso, se tratava de Domingos. E ele respondeu que sim. “Ela começou a chorar, e ele perguntou o que estava acontecendo. Ela respondeu: seu Domingos, seu filho Rui te procura há quase trinta anos”.

Rui ligou para o mesmo número no dia seguinte, e conseguiu conversar com seu pai, quase três décadas após a separação. Isso foi cerca de sete meses após a reportagem ser publicada, mas o reencontro físico ainda estava longe de acontecer.

O reencontro

Rui é soldador industrial, e precisava juntar dinheiro para visitar o pai, que vive a quase 2 mil quilômetros de distância. Neste meio tempo, no entanto, ele decidiu ajudá-lo. “Meu pai não tinha mais documentos, e não podia nem viajar, e eu quis fazer para ele”, lembra.

Diante da negativa da mãe de entregar a cópia da certidão de casamento – ela ainda estava muito chateada por conta do abandono – Rui entrou em contato com a tabeliã do único cartório de Pedreiras, onde tinha nascido. “Não foi fácil, eu falei que sabia que era um documento confidencial, mas expliquei a situação e ela se compadeceu e enviou uma cópia autenticada para meu endereço”.

Rui enviou a certidão para o pai, que conseguiu tirar um novo Registro Geral (RG) e abrir uma conta no banco. “Eu perguntei pra ele com o que, além do garimpo, ele tinha trabalhado e dado certo. Ele me falou que sabia criar porcos de raça”. Assim que conseguiu o dinheiro, o filho enviou a quantia necessária pra que o pai comprasse três fêmeas e um macho.

Quatro anos depois, depois de juntar dinheiro, Rui conseguiu finalmente conhecer o pai. Para isso, precisou pegar um voo de São Luiz para Belém e outro de Belém para Santarém.

Rui e a lancha em que viajou (Foto: Arquivo Pessoal)

“De Santarém eu peguei uma lancha por três horas, sentido Itaipuba, que parou na comunidade de Barreiras, que era a mais próxima com um cais”, conta. “Meu pai foi me buscar em uma rabeta, um barquinho a motor, e viajamos mais quase uma hora até chegar em Pedra Branca”.

O reencontro foi no cais de Barreiras. “Foi um momento maravilhoso, só nosso. Eu sou uma pessoa muito feliz hoje, por ter reencontrado meu pai. Hoje ele tem outra família, e eu descobri que tenho mais um irmão, o Johnny”.

Rui visitando a nova família de seu pai (Foto: Arquivo Pessoal)

Quatro anos depois de ter enviado o dinheiro para que o pai comprasse os quatro porcos, Rui encontrou uma criação de mais de trinta. Ele ficou cerca de vinte dias na comunidade, antes de voltar ao Maranhão. “Fiquei este tempo com ele lá aproveitando, curtindo. Ele não quer sair da comunidade, já tem a vidinha dele lá, a criação e a nova família, e eu entendo”.

Depois de tantos anos, Rui conta que não sente nenhum tipo de mágoa. “Eu não perguntei em nenhum momento pra ele porque ele foi embora, nada disso. O que eu quero é viver daqui para frente”, afirma. “Conversando com as pessoas e com ele eu vi que esse mundo do garimpo é difícil. É como se fosse um micróbio que faz você ficar fissurado, achando que vai ficar rico. Meu pai hoje tem 61 anos, mas está muito velho. Ele foi muito maltratado pelo garimpo, e nem conseguiu se aposentar”.

Longe do sofrimento e da angústia do não-saber, Rui só comemora e agradece. “Eu pretendo visitá-lo de novo nas próximas férias, talvez não ficar tanto tempo, mas agora vou sempre. Só tenho a agradecer a todo mundo que me ajudou, até à menina que atendeu o telefone e passou para a Laura. Sem vocês, e sem a moça do banco, eu não teria conseguido”.

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